domingo, 27 de maio de 2007

A SÍNDROME DO PÂNICO E O PÂNICO DE SÍNDROMES : RELATO DE EXPERIÊNCIA PESSOAL







“No que diz respeito ao desempenho, ao compromisso, à dedicação e ao esforço; não existe meio termo. Ou você faz a coisa bem feita ou não faz.” Ayrton Senna


Ano de 1999, primeira fase do vestibular da UFPE... de repente senti uma dor no peito, comecei a suar frio, o meu tremor era tão grande que mal conseguia escrever, o coração disparou, a garganta começou a fechar, a vista enegreceu. Aquilo era angustiante... achei que iria infartar ali mesmo... e a minha prova ? Precisava fazê-la. Fiquei tão desesperado que comecei a chorar. Espera... e essas pessoas me olhando, será que estão pesando que estou louco ? No quadro acima de Edward Munch há uma fotografia real de como eu me encontrava naquele instante... Mas espera um pouco, acho melhor voltar no tempo e rever uma série de acontecimentos que culminaram em tal situação...
A frase deste saudoso desportista brasileiro traduz todos os meus sentimentos e as minhas idéias em relação ao processo de tratamento dos transtornos de ansiedade a que fui submetido, e a busca pela realização de um sonho. Divagar sobre si, definitivamente, não é tarefa fácil, mas tentarei relatar todas as situações sui generes que vivenciei com tais transtornos.

Fui uma criança cheia de medos: medo de escuro, medo de “almas penadas”, medo de ficar sozinho em casa, medo de ladrões, medo do boneco do Fofão, medo de Rondon - um “ cheira - cola” de aparência vil e abjeta da cidade de Arcoverde -, medo da “ pomba gira”, medo de decepcionar meus pais, medo de trazer notas vermelhas no boletim, medo de perder nas competições de natação que participava, medo de chamar uma menina pra dançar nas quadrilhas e tomar um fora e, por fim, entre outros, medo de ter medo.
Percebem o quanto o medo esteve presente na minha infância? Posso afirmar categoricamente que sempre foi um velho conhecido meu. Hodiernamente andamos bem afastados, embora tenha sido muito bom pra nossa relação... nos damos muito bem... temos um relacionamento exemplar. Mas calma... antes de atingirmos esse invejável relacionamento passamos por uma grande crise, a saber :
Em 1998 tomei uma decisão que hoje considero por demais amadurecida pra minha idade naquela época – tinha 18 anos: decidi abandonar a vida de acadêmico do curso de Engenharia Eletrônica na UPE (Universidade de Pernambuco) e tentar uma vaga no curso de Medicina. Recebi apoio incondicional dos meus pais, embora conseguisse enxergar em seus olhos um certo ar de apreensão.
Dando continuidade a angustiante situação de 1999: ... mas como sempre fui por demais tímido, “ gozei” de todos esses sintomas silente e não procurei ajuda.Infelizmente, todo ano de estudo havia sido prejudicado, certamente teria péssimas notas e o pior, tinha de dar satisfações aos meus pais. O que fazer? Será que devo dizer a verdade? Será que vão acreditar em mim ? Decidi mentir e inventei que copiei os gabaritos errados para justificar um desempenho tão abaixo do esperado. Meus pais, com suas sensibilidades aguçadas que sempre lhes foram peculiar, decidiram que eu deveria fazer terapia pois perceberam algo de errado em meu comportamento habitual.
No ano seguinte, em 2000, os sintomas voltaram durante a realização das provas, dessa vez acompanhado de um velho conhecido meu – o medo de sentir medo – e de uma “amiga” sua muito próxima: a ansiedade. Esses sintomas vieram com uma intensidade e duração bem maiores. Foi definitivamente assustador... não consegui disfarçar, saí imediatamente da prova. Fui encaminhado para emergência de um renomado hospital da capital pernambucana. Lá fui submetido a milhares de exames e para nossa surpresa : “ Não tem nada” . Senti – me envergonhado, que situação embaraçosa, o que será que estava acontecendo comigo ? Conseguia ver nos olhos dos médicos um certo ar de desprezo, era como se afirmassem: “ Pra que esse garoto está dando esses chiliques na hora das provas do vestibular ? Só está me fazendo perder tempo! Volta pra casa vai estudar e deixa de frescura” . Alguns deles não conseguiam disfarçar e balançavam a cabeça negativamente demonstrando um frêmito de desdém e reprovação. Mostraram – se apenas “mestres incontestes” na “arte” de solicitar exames! Enfim, saí do hospital com a seguinte orientação médica: “Mande esse menino para um psicólogo!” Mas ora bolas, eu já estava fazendo terapia! Afinal, qual era o meu problema? Será que aqueles médicos só sabiam pedir tomografias, ressonâncias? Mais um ano havia se perdido e o medo e a ansiedade se perpetuavam cada vez mais em vida.
Em 2001, minha “via crucis” tornou-se ainda mais desesperadora: mais um transtorno de ansiedade tomou conta da minha vida : o TOC ( transtorno obsessivo compulsivo), comecei a ter mania de fazer horários de estudo. No auge dessas crises cheguei a organizar uns 35 h por dia. Às vezes chegava a acordar à noite pra fazer horário pra organizar horário de estudo. Pronto... como se não bastasse me prejudicar nos dias dos vestibulares, agora estava me prejudicando no cotidiano, já não conseguia me preparar mais como antes. Foi desesperador... chorava muito à noite, mal dormia ... o que seria do meu futuro? Era desestimulante perceber que alguns “amigos” não acreditavam em mim!!! No final do ano, nova peregrinação por emergências hospitalares, e o mesmo estúpido diagnóstico (passei a me tornar um paciente impaciente) : “ Você não tem nada” . Nesse ano tive a sorte de ser atendido pela Dra. Lígia Arruda (e sua doçura assaz inebriante) demonstrando que o ensinamento célebre do grande psicanalista inglês Michael Balint fazia parte do seu vasto cabedal de conhecimento, e que assim afirma : “ Toda doença é, também, o veículo de um pedido de amor e atenção” . Sinto – me eternamente agradecido por ser atendido com uma atenção iminentemente maternal ! De comum acordo com um médico amigo seu ( desde já peço perdão por não lembrar seu nome ) mandou-nos procurar Dr. Wilson Oliveira Júnior, e a partir daí minha vida começou a mudar. Pela primeira vez, algum médico entendia o que eu falava; naquele dia, após a consulta (e o diagnóstico de síndrome do pânico), chorei escondido em casa só de saber que alguém enfim sabia e entendia o que eu tinha. Há outro ensinamento de Ballint que assim diz : “ O remédio mais usado em medicina é o próprio médico, o qual, como os demais medicamentos, precisa ser conhecido em sua posologia, efeitos colaterais e toxicidade". Considero Dr. Wilson, indubitavelmente, como o principal remédio do tratamento ao qual fui submetido. Explico – me com mais clareza :
NOME DO REMÉDIO : Paroxetina de Medowilson
POSOLOGIA : Medicamento de administração mensal (1x por mês)
APRESENTAÇÃO : Cápsula gelatinosa, embalagem c / 1.
COMPOSIÇÃO : Cada cápsula contém : 20mg de atenção, 20 mg de dedicação, 20 mg de respeito, 30 mg de confiança , 50mg de altruísmo e 200mg de amor.
CONTRA – INDICAÇÕES : Não deve ser usado por pessoas que tenham hipersensibilidade aos componentes apresentados acima.
Fui apresentado também a Dra. Luciana Groupo, extremamente dedicada, competente e atenciosa – a quem sou eternamente grato por tanta dedicação -, e comecei a fazer terapia corporal cognitiva ( TCC ) .
Comecei então uma batalha bem mais humana: agora sabia qual era o meu inimigo e o que teria de fazer pra vencê-lo . Antes da vitória ainda passei por situações singulares: Durantes as crises de pânico no vestibular, saí como notícia em 2 jornais de grande circulação em Recife (ainda tenho os recortes desses jornais guardados) ; andei trancado em mala de carro (pra tentar simular situações parecidas com as da crise e treinar como eu deveria agir no momento) , andei com ligas amarradas no braço ( a cada mau pensamento me castigava e dava uma “ ligada” pra afasta-lo de mim), treinei fazer provas de vestibular sem enxergar direito e sem respiração adequada, fazia simulados com tempos curtos pra tentar terminar as provas antes de uma possível crise, frequentei aulas de ioga, tomei remédios homeopáticos, fui a benzedeiras, fiz provas em regime especial ao lado de deficientes visuais e de deficientes físicos, tive de ver meus pais chorando de desespero na minha frente a cada crise que tinha no vestibular e adiava por mais um ano a tão sonhada vitória – CONSEGUIR TERMINAR UM VESTIBULAR E CONCORRER A UMA VAGA. Explico-me melhor: a crise desencadeada durante os períodos de prova me eliminava precocemente dos processos seletivos.
Após aproximadamente 3 anos de terapia, em 2004 consegui, enfim, terminar as provas de um vestibular na Paraíba e ser aprovado com boa classificação. Hoje sinto – me leve, livre, suntuoso, exultante, “ rico” . Rico? Sim, rico. Tornei – me amigo dos amigos do meu Pai (Agradeço a força e atenção de Dr. Graça – pelas caminhadas no calçadão de Boa Viagem, Dr. Marcelo Padilha e Dr. Alice – por estarem sempre presentes ), conheci os verdadeiros amigos que tenho e a EXCEPCIONAL família da qual faço parte ( Como é importante ter um saudável alicerce familiar para enfrentar as dificuldades !!! ). Hoje estou excessivamente feliz, é como se eu fosse um gás nobre da tabela periódica (singular, ímpar); enfim hoje sinto - me sui generis. Mas cá entre nós né ? Mereço muuuuuuuuuuuuito ,mereço viver isso, tirei 10 com louvor, aprendi a controlar tais transtornos, honras ao meu mérito! E , por Deus, desejo do fundo da alma ter uma formação profissional auspiciosa, digna e sólida para acalentar aqueles que sofrerem de tais transtornos e ademais, parafraseando o mestre Wilson Oliveira Júnior com sua sabedoria inerentemente professoral: “ Terei discernimento crítico suficiente para conjugar o verbo CURAR somente no varejo e o verbo ALIVIAR no atacado” .